Testemunho do Francisco Braguês

Antes de iniciar o testemunho, devo dizer-vos duas coisas: fazer um testemunho e expô-lo não é nada fácil mas, por outro lado, fazer um testemunho é muito bom e vale muito a pena. Eu acho que o facto de não ser fácil é que o torna bom.

Um testemunho obriga-nos a olhar para trás, leva-nos a reflectir. Neste caso levou-me a reflectir sobre o Rumos e a sua importância no meu caminho de discernimento vocacional. E isso, para mim, é muito bom porque me faz reconhecer que não caminho sozinho e que a Luz de Deus está presente em todos os momentos.

O Rumos foi uma descoberta que se revelou numa agradável surpresa. Foi uma descoberta porque parti para o desconhecido: fui sozinho para uma actividade em que não conhecia ninguém e sem saber muito bem para o que é que ia. Enfim, depois de superadas todas estas inseguranças é que se abre a janela da agradável surpresa.

De facto, ter vindo ao Rumos e estar aqui a hoje a partilhar isto convosco é uma verdadeira surpresa. Aliás, não será Deus uma surpresa? Jamais pensaria vir a conhecer a Família do Carmelo Descalço e deixar-me fascinar por ela de tal forma que hoje estou aqui.

Eu conheci o Rumos depois de ter conhecido dois fradinhos que foram até Viseu, a minha terra natal, no final de 2014 fazer um fim-de-semana de formação sobre uma grande mulher. Essa grande mulher, Teresa de Jesus, por ter nascido em 1515 estavam a preparar-lhe uma grande festa: afinal 500 anos são uma bonita idade! Para além disso, eu estava a terminar o Ensino Secundário e precisava de orientar o futuro da minha vida. E foi a partir de uma conversa que tive com um dos Carmelitas que, um mês mais tarde, recebi um convite para participar na primeira edição do Rumos.

Recordo-me que nesse fim-de-semana nos falaram de Jesus e de Teresa e de como podemos desenvolver uma relação de amizade com Jesus. A certa altura foi-nos perguntado: «Como tratas a Deus?» E eu pensei: «Também gostava de o tratar com tanta intimidade como Teresa!».

Quando reflectia sobre estes felizes encontros entre acontecimentos com 500 anos de distância, dei-me conta como Deus cuida de nós e de que «os acontecimentos […] são a mão de Deus pousada sobre a nossa mão, modificando imperceptivelmente a escrita da página, o desenho duma vida», como diz Christian Bobin (Francisco e o Pequenino).

Ao fim do primeiro Rumos, uma porta abriu-se e foi tempo de começar a caminhar! Como diz S. João da Cruz: «o caminhante andará pouco e a muito custo se nisso mesmo não se empenhar com boas pernas, coragem e audaz porfia» (Ditos de Luz e Amor 3) e o Rumos ajuda-nos a caminhar. O Rumos nunca termina no Domingo, prolonga-se no tempo connosco através das nossas boas pernas, da nossa coragem e da nossa audaz porfia.

A partir do Rumos I iniciei uma etapa completamente nova na minha vida. Comecei a ser acompanhado e levar a sério que já sentia no meu coração há bastante tempo.

Também com o Rumos comecei o caminho tão desejado de intimidade com Jesus, como vos disse há pouco. Marcaram-me muito os vários compromissos que levávamos em cada Rumos e os “15 minutos” e o acompanhamento pessoal foram fundamentais para mim. Ainda hoje, ao descer para a Capela para ir rezar em silêncio com a minha comunidade digo a mim próprio: «Aqui tens os teus 15 minutos.» De facto, o mais importante não é o tempo em si mas a disposição de querer estar com Ele para me fortalecer a fim de continuar o caminho com coragem e audaz porfia.

O acompanhamento é outra peça-chave do Rumos. Por um lado, é realmente um privilégio ter pessoas disponíveis para nos escutarem, nos ajudarem e para caminharem connosco. Mas, por outro lado, este acompanhamento passa também pela familiaridade que se vai criando entre nós, participantes do Rumos. Esta cumplicidade profunda é destacada por todos nós sempre com muita alegria!

O Rumos foi, é e creio que será sempre uma grande graça para mim. É sempre bom voltar e reencontrar as pessoas e conhecer algumas novas. É sempre um sentimento de voltar a casa. Uma casa cheia de beleza, cheia de Deus e da comunhão que lhe é característica. A Casa de Comunhão, que todos ficamos a conhecer quando vimos ao Rumos, não deixa ninguém indiferente. Irmãs, frades e seculares a conviverem tão saudavelmente e a trabalharem tão bem em conjunto só nos levam a querer ficar!

Enfim, é verdade que isto de discernir a vocação a que Deus me chama não é tarefa fácil. Mas o Rumos simplifica. O Rumos vale a pena porque nos mostra como Deus nos ama e como só quer o nosso bem. O nosso Deus, como me disse há pouco tempo uma pessoa muito especial, não brinca connosco e não descansa enquanto não vir os seus filhos realizados e felizes.

Considero que o melhor testemunho que se pode dar do Rumos é a própria vida, marcada pela alegria de quem se pôs em caminho e em busca. E na mochila levar três verbos importantíssimos: escutar, conhecer e olhar.