“No entardecer da vida, seremos julgados pelo amor.”
O teu nome é João…
João… chamo-te assim como te chamava a tua mãe, Catarina, quando te via correr pelos campos frios de Fontiveros. O vento da Castela do século XVI moldou-te o rosto e o coração: um menino pobre, frágil e atento, nascido em 1542, numa casa onde o pão era escasso e a fé era abrigo. Desde cedo aprendeste que o amor verdadeiro é o que se mantém firme no meio da necessidade.
Vejo-te crescer, João, entre o trabalho e a oração. Vejo-te cuidar dos doentes no hospital de Medina del Campo, enxugar feridas, escutar dores, reconhecer no olhar de cada um o rosto de Cristo crucificado. No silêncio desses corredores o teu coração começa a aprender a compaixão. Há em ti uma sede que o mundo não apaga, uma sede de sentido, de beleza, de Deus.
Entraste no Carmelo ainda jovem, com o nome de Frei João de São Matias, e logo percebeste que o claustro não é uma fuga, mas plenitude. Em Salamanca estudaste teologia e filosofia, e ali descobriste que todo o saber é pequeno diante da experiência viva do Amor. A tua alma desejava mais: desejava um Carmelo pobre e livre, centrado em Deus.
E então, num dia de graça, encontraste Teresa de Jesus. Ela falava-te de reforma, de um Carmelo renascido, e tu sentiste que as suas palavras tinham o mesmo fogo que ardia no teu peito. Disseste-lhe: “É para isso que nasci.” E partiste com ela. Duruelo foi o teu primeiro deserto: paredes nuas, chão frio, oração incessante. Mas ali a tua alma encontrou morada.
Recordo-te a transformar, com os teus irmãos, uma casa humilde num eremitério: uma cruz tosca de madeira, uma campainha pequena para chamar à oração, um pedaço de terra onde o pão se ganhava com as mãos. De noite, a chama do candeeiro balançava, e tu repetias ao coração que Deus basta. Em Mancera e Pastrana perseveraste no mesmo espírito: uma fraternidade descalça, sóbria e alegre, em que tudo se media pela caridade e pela verdade.
Chamaram-te para formar, orientar, reconciliar. Em Ávila, ao lado de Teresa, foste confessor e guia do grande mosteiro da Encarnação; em Alcalá e Baeza, educaste jovens e fundaste centros de formação; em Granada, como prior, ensinaste que a reforma não é dureza, mas fidelidade amorosa. A tua autoridade nascia da mansidão: eras exigente contigo e benigno com os outros, e por isso a tua palavra tinha peso e o teu silêncio tinha luz.
Mas o Amor, João, tem sempre o seu preço. A fidelidade à reforma levou-te à prisão de Toledo, onde foste encerrado pelos teus próprios irmãos. Nove meses sem luz, sem missa, sem consolo. Só tu e o silêncio. Só tu e Deus. E foi aí, na escuridão, que começaste a cantar:
“Em uma noite escura,
com ânsias, em amores inflamada,
ó ditosa ventura!
Saí sem ser notada,
estando a minha casa sossegada.” (N 1,1)
Dessa noite nasceu a tua doutrina. Mostraste-nos que a fé é confiar quando não se vê, que o amor amadurece na ausência, que Deus é mais íntimo do que a própria alma. Fugiste da prisão por uma janela estreita e, em Beas e Granada, recomeçaste sem rancor: visitaste as irmãs carmelitas, pregaste, aconselhaste, consolaste. Enquanto exteriormente te consumias, por dentro escrevias: “Para chegares a saborear tudo, não queiras ter gosto em nada; para chegares a possuir tudo, não queiras possuir coisa alguma.” (S 1,13,11)
Vejo-te a escrever de pé, à luz breve de uma vela, versando a alma como quem afina um instrumento. Não eram máximas frias, eram passos do teu próprio caminho. E quando alguns te feriram com suspeitas e afastamentos, respondeste com a liberdade dos mansos: “Onde não houver amor, põe amor, e encontrarás amor.” (Ct 26)
Nos últimos passos, Segóvia foi-te casa e cruz. Conflitos internos roubaram-te cargos, mas não a paz. Pediste ir para um convento pobre; mandaram-te para Úbeda. A enfermidade abriu-te feridas novas; a graça alargou-te o coração. Na madrugada de 14 de dezembro de 1591, o teu rosto serenou. Sussurraste, como Cristo, as palavras do salmo: “Nas tuas mãos, Senhor, entrego o meu espírito.” Tinhas quarenta e nove anos. A tua noite terminava em aurora. A cruz tornava-se luz.
Depois da tua páscoa, a tua fama de santidade espalhou-se depressa. Em 1726 foste canonizado, e em 1926 a Igreja proclamou-te Doutor com o título de Doutor Místico; desde 1952 és também padroeiro dos poetas espanhóis. A tua festa celebra-se a 14 de dezembro. O povo reconheceu no teu canto uma linguagem nupcial e bíblica: no Cântico Espiritual, a alma busca o Amado pelos montes e outeiros; na Chama de Amor Viva, confessas o incêndio suave que consome sem destruir:
“Ó chama de amor viva,
que ternamente feres
da minha alma o mais profundo centro.” (Ch 1,1)
Se te cruzasses com ele hoje…
Encontrá-lo-ias talvez à porta de uma igreja, sentado em silêncio, com um pequeno livro entre as mãos. Olharia para ti devagar, como quem atravessa o ruído e vai direito ao coração. Não falaria muito. Bastaria um olhar para perceberes que ele conhece bem as tuas inquietações.
Dir-te-ia: “Não temas a noite. É nela que Deus trabalha.”
Falaria do sofrimento, não como fardo, mas como lugar de encontro. Contar-te-ia que a fé não é sentir, é permanecer. Que o amor verdadeiro não precisa de aplausos, apenas de fidelidade.
Se lhe dissesses que já não sabes rezar, ele sorriria e responderia: “O silêncio é também oração.”
Se lhe confessasses o medo de não compreender o caminho, dir-te-ia: “A fé caminha às cegas, mas guiada pela luz interior.”
E se lhe perguntasses como se chega à santidade, ele responderia com simplicidade: “Põe amor onde não há amor e encontrarás amor.”
João ensinar-te-ia a escutar o coração, a viver despojado, a ver Deus nas coisas pequenas. Mostraria que o Carmelo não é um lugar distante, mas um modo de viver: habitar o silêncio, escolher o essencial, deixar-se conduzir. A sua presença traria paz, uma paz que não depende das circunstâncias, mas brota de dentro, como nascente escondida.
E tu?
O que fazes com as tuas noites?
Foges delas ou deixas que se tornem caminho?
Quando Deus parece calado, esperas ou desistes?
E quando o amor te custa, ainda o escolhes?
João da Cruz convida-te a transformar o escuro em lugar de encontro. A aceitar o silêncio como promessa. A reconhecer, no meio das perdas, a presença que nunca se vai. O seu ensinamento é simples e exigente: o amor só amadurece quando passa pela noite. O coração só se torna livre quando se desapega de tudo o que não é Deus.
Talvez também tu sejas chamado a subir o monte do amor, passo a passo, com humildade e coragem. Talvez o teu caminho seja diferente, mas o horizonte é o mesmo: a união com o Amor que te habita e te espera.
As palavras que ficaram
“Vivo sem viver em mim,
e de tal maneira espero,
que morro porque não morro.” (Coplas 1)
Para onde te leva este fogo?
O fogo de João da Cruz não destrói: purifica. É o fogo do amor que atravessa o sofrimento e se transforma em luz. Ele recorda-te que a fé não é ausência de dúvida, mas confiança dentro da dúvida; que a santidade não é grandeza, mas fidelidade; que o céu começa quando o coração se deixa habitar.
Se fores chamado ao Carmelo, ele será teu irmão de caminho. Ensinar-te-á a viver do silêncio e da presença, a amar sem possuir, a esperar sem ver.
Mas se fores chamado a outra vocação ele acompanhar-te-á também, porque o verdadeiro Carmelo é o coração que se faz morada de Deus no meio do mundo.
João continua a sussurrar-te através dos séculos: “O amor só se paga com amor.” (C 10,6)
Ama quando o dia se apaga, ama quando a fé vacila, ama quando tudo parece inútil.
E quando não souberes o que fazer, lembra-te dele, o homem pequeno de Castela, o poeta da noite, o amigo de Teresa, e escuta o eco da sua voz: a noite não é o fim, é o lugar onde se purifica o amor.
