Há uma sede que nenhuma água sacia. Uma sede que começa no corpo, mas desperta na alma; e só encontra resposta no silêncio onde Deus habita. É desta sede que nasce a oração. Não da obrigação, nem do dever. Não de fórmulas decoradas nem de horas marcadas. A oração começa mais fundo, quando alguma coisa em nós se abre como terra seca à espera da chuva. Quando já não basta o que temos, o que sabemos, o que fazemos… e emerge um desejo maior. Um vazio que não é ausência, mas apelo.

No Carmelo, aprendemos que esse desejo é o início de tudo. Teresa de Jesus e João da Cruz não começaram a rezar porque sabiam como. Começaram porque sentiam uma sede e ousaram escutá-la. E porque, no fundo, sabiam que só Deus a podia saciar.

 

A sede como linguagem da alma

 

O Salmo 63(62) reza: “A minha alma tem sede de Ti, como terra árida, sequiosa, sem água.” (v. 2). Esta imagem não descreve apenas Deus: descreve o coração humano. Somos feitos de desejo, somos seres sedentos. E isso não é uma fragilidade, é a nossa linguagem mais profunda.

Na tradição cristã, o desejo não é desordem: é impulso vital, dinamismo de sentido. É o que nos move, o que nos faz procurar, o que nos impede de nos contentarmos com o superficial. Quem deseja muito, vive muito. E quem sente sede, já começou a procurar a fonte que dessedenta essa sede.

A juventude é, por excelência, o tempo da sede. Sede de amor que valha a pena, sede de justiça, sede de pertença, sede de autenticidade. Mas também, às vezes, uma sede sem nome — que se manifesta no silêncio, na inquietação ou na sensação de que “tem de haver algo mais”. É aí que a oração pode começar: não como uma resposta pronta, mas como um caminho aberto.

Teresa de Jesus descobriu isso muito cedo. Cresceu num tempo em que Deus era muitas vezes anunciado com medo, mas ela desejava amar. Desejava ser livre para encontrar esse amor e para se deixar encontrar por Ele. Foi isso que a levou a procurá-Lo, antes de compreender tudo, antes de ter certezas. Procurava-O porque tinha sede d’Ele.

Mais tarde, recordando o que tinha vivido, escreverá uma das definições mais belas e acessíveis de oração: “Porque, a meu ver, a oração mental não é mais do que uma relação de amizade, estando muitas vezes a sós com Quem sabemos que nos ama.” (V 8,5). Não se trata de uma definição teórica: é o núcleo da sua experiência. Orar não começa com ideias claras, mas com sede de amor. E esse amor não é uma abstração: é o amor de Alguém, Alguém que nos conhece, que nos chama, que nos espera. A oração começa aqui: com um coração que se sabe desejado, mesmo sem saber como responder.

Não é sede de qualquer coisa: é sede de Deus, mesmo quando ainda não sabemos nomeá-la assim.

 

Rezar antes de saber rezar

 

Muitos jovens dizem que não sabem rezar. Mas o que normalmente querem dizer é que não sabem que palavras usar, que atitudes ter, que imagens formar. Pensam que rezar é algo complicado, reservado a quem já tem fé ou a pratica com segurança. Mas a verdade é outra: ninguém começa a rezar com certezas. Na verdade, a própria sede é já oração. Quem tem sede de Deus já começou a procurá-Lo, mesmo sem palavras, mesmo no silêncio, mesmo na confusão.

Teresa insiste neste ponto com a força de quem o experimentou: “É muito importante – e mesmo para tudo – uma determinada determinação de não parar até chegar à fonte, venha o que vier, aconteça o que acontecer, trabalhe-se ou morra-se no caminho” (V 21,2). Não se trata de dominar um método ou de atingir um estado especial. Trata-se de não desistir. A sede autêntica empurra-nos para a Fonte, mesmo sem sabermos como lá chegar. Teresa começou a rezar assim, no meio das suas crises interiores, no cansaço da alma, no desconcerto. E ali, nesse lugar sem chão, aprendeu a estar diante de Deus.

Mais do que uma técnica ou um esforço, a oração é, para ela, uma relação viva. Não é apenas pensar em Deus, nem tão pouco uma suspensão dos pensamentos. É estar com Alguém. É entrar numa amizade que se cultiva com frequência e confiança. Como ela escreveu, oração é estar muitas vezes a sós com Quem sabemos que nos ama.

Essa amizade espiritual não isola, mas funda-se numa solidão habitada — uma solidão que não é vazio, mas espaço aberto à presença. Como a caverna onde Elias escutou o murmúrio subtil de Deus (cf. 1Rs 19,12), também o nosso interior se torna lugar de encontro quando nos despojamos do ruído.

 

A oração como encontro

 

Mas esta amizade não se constrói apenas nos primeiros passos. À medida que a sede se aprofunda, o desejo transforma-se em encontro. A oração torna-se espaço de presença mútua, lugar de transformação interior.

João da Cruz, com a sua linguagem poética e contemplativa, exprime essa profundidade de forma surpreendente: “O mais leve movimento de uma alma animada de puro amor é mais proveitoso à Igreja do que todas as demais obras reunidas” (D 61). A fecundidade da oração não está no que produzimos visivelmente, mas na união invisível com Deus. Uma alma que se move por amor — mesmo num gesto interior — ilumina o corpo inteiro da Igreja.

Para Teresa e João, orar não é tanto dizer algo, mas estar com. Estar com Deus como se está com um amigo íntimo, com quem o silêncio não pesa. E essa permanência transforma-nos. Não porque sintamos algo extraordinário, mas porque o amor fiel opera em nós silenciosamente. A amizade torna-se encontro, e o encontro torna-se fecundidade.

Mas esse encontro não nos fecha em nós próprios. Teresa afirma que quem reza verdadeiramente se capacita para amar mais e melhor. A oração não afasta do mundo: aprofunda o olhar sobre ele. Torna-nos mais disponíveis, mais humanos, mais livres. Quem se encontra com Deus aprende a amar os outros com mais verdade, porque começa a ver como Deus vê.

 

O tempo da sede é tempo de graça

 

Um dos maiores enganos na vida espiritual é pensar que só rezamos bem quando sentimos Deus. Que só há oração verdadeira quando há luz, entusiasmo ou consolo. Mas Deus não é menos Deus quando nos parece ausente. E o vazio que sentimos nem sempre é sinal de fracasso, pode ser justamente sinal de que algo novo está a ser gerado.

Há momentos em que a oração se torna difícil, em que tudo parece seco e sem sentido. São as chamadas “noites”, tão bem descritas por João da Cruz: noites da fé, do sentido, do coração. Mas João revela que essas noites são caminho para a luz. Porque é ali, quando já nada consola, que se purifica o desejo. É aí que a sede mostra o que há de mais verdadeiro em nós.

No seu poema mais célebre, João canta: “Ó noite que guiaste! / Ó noite amável mais do que a alvorada! / Ó noite que juntaste / Amado com amada, / Amada no Amado transformada!” (Noite Escura, Canção 5).

A noite — símbolo da sede levada ao extremo — torna-se mais amável do que a luz da manhã. Porque nela, quando todas as luzes humanas se apagam, o encontro acontece como graça pura: inesperada, imerecida.

A sede purifica. Leva-nos para além dos apoios exteriores, das seguranças infantis, das imagens projetadas. Ensina-nos a confiar. Ensina-nos a esperar. Ensina-nos que o essencial não se vê, mas sustenta. E esse tempo, mesmo se seco, é tempo de graça.

 

A oração começa com sede

 

Talvez por isso Jesus, na cruz, tenha dito: “Tenho sede.” (Jo 19,28) — não apenas sede física, mas sede de nós. Sede da humanidade. Sede de nos encontrar. E talvez por isso, à mulher samaritana, tenha pedido: “Dá-Me de beber.” (Jo 4,7) — não porque precisasse, mas porque desejava que ela reconhecesse a sua própria sede.

Neste ponto do caminho, talvez o mais importante seja isto: não esperes mais para rezar. Não esperes sentir tudo certo. Não esperes que a tua fé seja grande, nem que o teu coração esteja em paz. Começa com o que tens: com sede.

Senta-te em silêncio. Diz-Lhe que estás ali. Pede-Lhe que venha ao teu encontro. Ou fica apenas a olhar, sem palavras. Como quem espera. Como quem sabe que Ele vem.

A oração começa assim: não quando dominamos um método, mas quando nos deixamos tocar pela sede. E nesse lugar interior, silencioso, começa uma história. E nessa história, não caminhamos sós. Teresa dizia que as almas que se ajudam mutuamente a buscar Deus chegam mais longe. A oração é sede partilhada. É amizade que se prolonga no tempo e que nos transforma. É amor que, mesmo no silêncio, nos liga a Deus e aos irmãos.

Na verdade, a oração não é só sede nossa por Deus, é sede de Deus por nós que nos desperta para rezar. Deus tem sede de ser desejado.

 

Teresa e João: mestres da sede fecunda

 

No final deste caminho, descobrimos que a sede é dom e não obstáculo. Não fraqueza. Mas terra boa onde a oração pode florescer.

Teresa ensina-nos que não é preciso muito para começar. Basta um coração disponível, que se sabe amado.

João da Cruz mostra que mesmo na noite escura, a sede conduz ao Amado. E que essa sede pode tornar-se união, silêncio cheio, amor que sustenta o mundo.

Hoje, se sentes sede… começa a rezar.

Mesmo sem palavras. Mesmo sem certezas. Mesmo sem forma.

A oração começa com sede.

E a sede já é um dom — porque há Alguém que, desde sempre, Se senta à beira do teu poço.

E espera.

Para te dar de beber.
Facebookmail