“Quero passar o meu Céu a fazer o bem sobre a terra.”
O teu nome é Teresa…
Nasceste numa casa de rendas finas e corações inteiros. Alençon foi o teu primeiro berço, mas cedo aprendeste que o amor também passa pela perda. Tinhas apenas quatro anos quando a tua mãe, Zélia, morreu; e aí começou o teu caminho de exílio e promessa. Mudaste-te com a tua família para Lisieux, onde os Buissonnets se tornaram o cenário discreto de uma infância marcada por afetos intensos, espiritualidade precoce e uma sensibilidade quase excessiva, que depressa se transformaria em força secreta.
Desde muito pequena, o teu coração encontrou um espelho em Paulina, a tua irmã e modelo, aquela a quem chamavas “segunda mamã”. Era para ela que escrevias os teus primeiros versos e com quem desejavas partilhar até os silêncios. Quando Paulina entrou para o Carmelo de Lisieux, tu soubeste de imediato que esse também era o teu destino. Tinhas apenas nove anos, mas já tinhas feito a tua escolha. O teu mundo interior já era feito de uma fé confiante e determinada, onde os grandes desejos se exprimiam com a simplicidade das crianças.
Com onze anos, a doença do teu pai, o “rei querido”, e as inquietações espirituais mergulharam-te numa noite de escrúpulos e angústias. Mas na noite de Natal de 1886, recebeste a graça de uma conversão inesperada: deixaste de lado as lágrimas por pequenas contrariedades e decidiste crescer “de uma só vez”. Nesse instante, abriu-se diante de ti o horizonte do amor como entrega total. Começaste a caminhar decididamente para o Carmelo, com uma audácia que surpreendia até os que te amavam.
Com catorze anos, ofereceste a tua vida pela salvação do assassino Pranzini, a quem chamaste de “primeiro filho”. E ainda antes de completar os quinze anos, partiste com o teu pai para Roma para pedir diretamente ao Papa Leão XIII a autorização para entrar no Carmelo antes da idade mínima. E conseguiste. Entraste a 9 de abril de 1888. A tua juventude ficaria para sempre ali, entre as paredes do mosteiro, nas tarefas humildes e na vida oculta.
Mas essa clausura não te fechou: abriu-te. Lá dentro, tudo em ti saiu de si mesma para se tornar dom: cartas, poesias, orações, peças de teatro, gestos escondidos, pequenos sacrifícios, fidelidade quotidiana. Descobriste que a santidade não é feita de obras extraordinárias, mas de um amor extraordinário nas obras mais simples. E assim nasceu o teu “pequeno caminho”: uma via de confiança, entrega, amor escondido e fecundo.
Tinhas vinte e dois anos quando te ofereceste como vítima ao Amor Misericordioso, e com isso acendeste um fogo de luz no coração da Igreja. A tua noite escura começou pouco depois. Já não sentias a presença de Deus. Viveste quase dois anos num silêncio denso, onde só o amor te sustentava. Mas nunca duvidaste. Fizeste-te pequena para que todos coubessem no teu caminho: os santos e os fracos, os fortes e os pecadores, os que creem e os que hesitam.
Morreste a 30 de setembro de 1897, aos 24 anos. Um ano depois, História de uma Alma começava a correr o mundo. Tinhas dito que virias “lançar rosas” e desde então não paraste. Foste beatificada por Pio XI em 1923 e canonizada apenas dois anos depois, a 17 de maio de 1925. Em 1997, cem anos após a tua morte, o Papa João Paulo II proclamou-te Doutora da Igreja, como sinal de que o teu pequeno caminho é também uma via de sabedoria para o nosso tempo.
Dois anos após a tua canonização, em 1927, foste proclamada Padroeira Universal das Missões, ao lado de São Francisco Xavier. Muitos ficaram surpreendidos: afinal, nunca saíste do claustro. Mas a tua vida foi missão. Acompanhavas os missionários com orações e cartas, ofereceste por eles os teus sofrimentos e uniste o teu coração ao Coração de Jesus pela salvação do mundo inteiro.
Evangelizaste também com a tua escrita. As palavras que deixaste — simples, confiantes, ardentes — tornaram-se fonte de conversão e consolo para milhares de almas. História de uma Alma foi traduzida em dezenas de línguas e continua, mais de um século depois, a tocar vidas em todos os continentes. No silêncio do Carmelo, o teu amor atravessou fronteiras. A tua missão não acabou: ainda hoje, passas o teu Céu a fazer o bem sobre a terra.
Se te cruzasses com ela hoje…
Se te cruzasses com Teresinha hoje, talvez nem desses por ela à primeira vista. Não haveria em nela nada de extraordinário. Nem carisma de multidões, nem pose de quem impõe presença. E, no entanto, bastaria uma conversa breve para perceberes que nela tudo era verdade. Uma verdade humilde, intensa, luminosa.
Terias à tua frente alguém que não procura vencer, mas amar. Que não mede a vida em êxitos, mas em fidelidade. Alguém que se alegraria por ti em silêncio, que te ofereceria uma palavra sóbria, mas inesquecível. Que saberia olhar-te nos olhos, ouvir as tuas sombras sem se escandalizar, e apontar-te com doçura o caminho que passa pelo amor.
Teresa seria uma companheira discreta. Riria contigo, escutaria os teus medos, e ajudaria a dar-lhes nome. Faria nascer em ti o desejo de confiar. Não te pediria mais do que um pequeno passo, e mostrar-te-ia que esse passo, dado com amor, pode mudar tudo. Em vez de te dar respostas acabadas, ensinar-te-ia a escutar o Coração de Jesus no mais íntimo da tua fraqueza.
Dir-te-ia que não importa se és forte ou frágil, visível ou escondido, cheio de certezas ou de perguntas. Importa só que te deixes amar por Deus e que respondas a esse amor, na tua condição concreta, com aquilo que és. Talvez num hospital, numa escola, num convento, num quarto simples, numa paróquia, numa comunidade ou na tua própria casa. Ser santo, para ela, era isso: amar no real, no hoje.
E se te sentisses pequeno demais, Teresa sorriria. Porque é justamente aí que começa o seu caminho: no chão dos pequenos que não têm onde pôr os pés, e que por isso são levados ao colo. No silêncio, ela dir-te-ia com ternura: “Não é preciso subir grandes montanhas, há um elevador que é o braço de Deus.”
E tu?
E tu, em que lugar da tua vida escutas esta voz que te fala de confiança?
Já te aconteceu sentir que a santidade é um ideal distante, reservado a alguns? Que a tua história tem demasiadas ruturas, dúvidas ou fragilidades para dar fruto? Já sentiste que Deus pode ser amor para os outros, mas não para ti?
Teresa não vem responder com teorias, mas com vida. E a vida dela faz-te uma pergunta: e se for verdade que Deus te ama tal como és, agora? E se for verdade que o amor não se conquista, mas se acolhe?
Estás disposto a percorrer um caminho onde não é o teu esforço que conta mais, mas o abandono de quem se entrega confiante? Tens coragem de deixar Deus ser Deus na tua história concreta: com os teus limites, mas também com o teu desejo de amar?
Estarias disposto a fazer da tua vida uma oferenda? A escolher o amor nas pequenas coisas, no oculto, no gesto que ninguém vê? Estarias disposto a acreditar que há um lugar para ti na missão da Igreja, mesmo que te sintas pequeno?
Teresinha pergunta-te com a sua vida inteira: queres confiar?
As palavras que ficaram
“No coração da Igreja, minha Mãe, serei o Amor.”
(Manuscrito B, 3vº)
Para onde te leva este fogo?
Teresa ardeu por dentro sem dar nas vistas. Viveu escondida e, por isso mesmo, tornou-se luz para o mundo inteiro. O seu pequeno caminho não foi feito de grandes feitos, mas de amor escondido, de gestos simples, de fidelidade confiante.
Esse é o fogo que hoje te alcança: um amor que não precisa de palco, que se oferece no silêncio, que transforma a vida comum em altar. Teresinha convida-te a acolher esse amor e a fazer dele a tua resposta.
Talvez sejas chamado à vida consagrada, ao sacerdócio, ao matrimónio, à entrega laical no coração do mundo. Seja qual for a tua vocação, Teresinha lembra-te que a santidade não está nas formas exteriores, mas no modo como amas.
Se sentes que o teu coração arde com este desejo de amar como Jesus, então não tenhas medo: deixa-te consumir por este fogo. Ele é mais forte do que as tuas dúvidas, mais forte do que os teus limites.
E tu? Estás pronto para fazer da tua vida uma história de amor?
