Há nomes que ecoam como canções antigas. Nomes que, quando alguém os pronuncia, fazem estremecer o coração, porque nos recordam quem somos. Num tempo de pressa e de ecrãs, onde tudo passa depressa e quase ninguém escuta, ouvir o próprio nome dito com amor é uma das experiências mais humanas e mais divinas que existem.

Há quem viva a correr e já nem repare quando é chamado. Há quem se esconda atrás de máscaras, de filtros, de personagens inventadas para agradar. E há quem deseje, no fundo, apenas isto: ser reconhecido, ser chamado pelo nome, ser amado tal como é.

O profeta Isaías transmite-nos o murmúrio de Deus: “Não temas, porque Eu te resgatei; chamei-te pelo teu nome, tu és Meu” (Is 43,1). Há algo de sagrado neste gesto de nomear. Quando Deus chama pelo nome, não repete uma etiqueta: cria intimidade. Revela um vínculo. Reacende o primeiro sopro da criação, quando cada ser foi chamado à existência por uma palavra de amor.

O nome é mais do que um som. É o lugar onde a nossa história se reúne e ganha sentido. Cada um traz no seu nome as marcas da origem, os traços da família, os sonhos e as feridas, as memórias e as promessas, os dons e as quedas. E é a partir daí, não fora daí, que Deus fala.

Muitos jovens pensam que Deus só chama pessoas perfeitas, que só tem planos para quem nunca errou. Mas o Evangelho é uma história de nomes imperfeitos pronunciados com ternura: Maria de Nazaré, Pedro o impulsivo, Madalena a fiel, Zaqueu o inquieto. Cada um foi chamado a partir da sua vida concreta. É ali, na terra real que se pisa, que o Senhor passa e diz: “Segue-Me.”

O nome e a história pessoal

Deus não escreve em folhas em branco, mas nas páginas vivas da história humana. Escreve em linhas humanas, às vezes tortas, mas sempre habitadas pela graça. O chamamento de Deus nunca apaga o passado, transforma-o. Teresa de Jesus compreendeu-o bem. Nos seus escritos recorda o início da sua vida com lucidez e humildade: “O Senhor começou a despertar-me desde criança para a virtude” (V 1,1). Reconhece as graças e as quedas, as luzes e as sombras. Não esconde as fraquezas; pelo contrário, fala delas para mostrar “quão grande é a misericórdia de Deus e o quanto tolera a uma alma” (V 5,11).

Teresa aprendeu que Deus não chama apesar da nossa história, mas através dela. O caminho espiritual começa quando deixamos de fugir daquilo que vivemos e começamos a escutar o que Deus nos quis dizer por meio de tudo.

Também João da Cruz caminhou por essa vereda. Filho de tecelão, pobre, órfão de pai, conheceu desde cedo o trabalho duro e o silêncio das privações. Foi precisamente aí, nessa história concreta e sofrida, que aprendeu a escutar Deus nas pequenas coisas. Quando mais tarde escreverá: “Onde não há amor, põe amor e encontrarás amor” (Ct. 26), fala a partir da própria experiência. A sua teologia nasce da vida, como a de Teresa. Ambos descobriram que a graça não cai sobre uma vida ideal: germina dentro da vida real, com as suas feridas e contradições.

É fácil olhar para trás e ver apenas erros, mas o olhar de Deus não é assim. Ele contempla a totalidade. Vê o fio de ouro escondido por baixo do tecido gasto. Teresa, olhando o seu passado, ousa dizer: “Louvado seja o Senhor que tanto me esperou” (V Pról. 2). É um versículo de vida inteira, que traduz o coração agradecido da Santa. E João, nas suas noites mais escuras, aprende que “a noite é luz para a alma” (N II,22,4). Ambos compreenderam que o amor de Deus é paciente, e que cada história humana é uma página em reescrita contínua pela misericórdia.

O olhar que liberta

E no meio desta história pessoal, um olhar muda tudo. Deus não chama para aprisionar, mas para libertar. O seu olhar não é um olhar que acusa, mas que cria espaço. Quando Jesus encontra Simão e lhe diz “tu és Pedro”, não descreve o que ele era, mas o que podia vir a ser. O olhar de Cristo é criador: vê antes de nós o nosso verdadeiro rosto.

Teresa experimentou esse olhar. Diante de uma imagem de Cristo chagado, que ela descreve assim: “Foi como se Ele me olhasse com tão grande amor que não pude deixar de O amar” (V 9,1). A partir desse encontro, toda a sua vida muda. Deixa de se ver como culpada e começa a ver-se como amada. João da Cruz viveu, ele mesmo, o que escreveria: ‘Já não vive a alma em si, mas em Deus; e assim tudo o que ela faz é divino’ (Ch 1,13). A liberdade espiritual começa aqui, quando deixamos de nos olhar com medo e começamos a ver-nos com os olhos de Deus.

Este olhar liberta porque nos restitui o nome. Quando Maria Madalena ouve Jesus pronunciar o seu nome junto ao sepulcro, “Maria!”, tudo muda. O pranto transforma-se em alegria, a noite converte-se em manhã. Assim é sempre que deixamos Deus chamar-nos: o nosso nome, tantas vezes ferido, torna-se anúncio de vida nova.

A oração como escuta do próprio nome

Santa Teresa define a oração como “tratar de amizade, estando muitas vezes a sós com Quem sabemos que nos ama” (V 8,5). Este “sabemos” é essencial: não se trata de sentir, mas de confiar. A amizade com Deus não depende das emoções, mas da certeza de ser amado.

Na oração, Deus não fala com barulho. Fala com ternura. O chamamento de Deus não é um grito que impõe, mas um murmúrio que propõe. Por isso, é preciso silêncio. O mundo grita, mas Deus sussurra. Só no silêncio se reconhece o próprio nome pronunciado por Ele.

João da Cruz chama a isto “noite luminosa”. Quando tudo parece escuro, quando não há palavras nem consolações, é aí que Deus trabalha mais profundamente. A oração torna-se então escuta pura, confiança desarmada.

Rezar é aprender a ouvir o nosso nome no coração de Deus. Quando um jovem se põe em oração, não está a fugir da realidade: está a entrar nela de modo mais verdadeiro. O tempo da oração é o lugar onde as peças soltas da vida se recompõem. Ali Deus recorda quem és, quem foste e quem ainda podes ser.

Caminho de escuta

Nestes próximos quinze dias, reserva um momento do dia — de manhã, quando o sol ainda é brando, ou ao anoitecer, quando o ruído abranda — apenas para te deixares chamar pelo nome. Senta-te num lugar tranquilo. Respira fundo. Deixa que o corpo se aquiete e o coração se torne silencioso.

Depois, abre a Escritura e escolhe uma frase que te fale com ternura: “Chamei-te pelo nome, tu és Meu” (Is 43,1); ou “As minhas ovelhas escutam a minha voz; Eu conheço-as e elas seguem-Me” (Jo 10,27); ou ainda “Fala, Senhor, que o teu servo escuta” (1 Sm 3,10).

Lê-a lentamente, como quem saboreia uma palavra antiga e familiar. Repete-a em silêncio, deixando que cada sílaba desça ao fundo do coração. Não te apresses: é Deus que a pronuncia.

Associa à leitura um pequeno gesto: escreve o teu nome num papel e, ao lado, a palavra “Amado” ou “Amada”. Guarda-o na Bíblia ou no teu caderno de oração, como um lembrete do olhar que te sustenta.

E termina simplesmente com um agradecimento: “Senhor, obrigado porque me conheces e me chamas pelo nome.”

O segredo não está em dizer muito, mas em deixares-te chamar pelo teu nome, com amor. Pouco a pouco, o teu nome vai tornar-se missão, e a tua história oração viva.

Ser história viva de Deus

Cada pessoa é uma história onde Deus quer escrever o seu amor. Teresa e João mostram que não há passado perdido, apenas vida a ser transfigurada. Teresa, olhando o seu percurso, reconhece: “A misericórdia de Deus é maior do que todos os meus pecados.” (V 4,2). João afirma: “A alma que caminha no amor, ainda que não chegue onde queria, não deixa de caminhar.” (D 64).

Ambos descobriram que a santidade é deixar que Deus seja o autor principal da própria história.

Ser jovem com Teresa e João é aceitar este desafio: deixar que Deus te chame pelo nome, te olhe com amor e te conduza pela tua própria história. É viver com autenticidade, sem medo do passado nem ansiedade pelo futuro. É acreditar que, por trás de cada curva do caminho, Deus continua a escrever contigo.

Quando deixamos que o Senhor nos chame pelo nome, a vida torna-se uma narração de amor. Teresa de Jesus foi uma jovem que aprendeu a escutar esse chamamento no meio da inquietação e das resistências, até descobrir que o verdadeiro nome de cada pessoa é “amada”. No seu coração, Deus acendeu um fogo que não se apagou mais. É esse coração inquieto e livre que encontraremos no próximo passo da nossa caminhada: a vida e a fé de Teresa, mulher de oração e de audácia.

Oração

Senhor, Tu que me chamas pelo nome, ensina-me a escutar-Te.

Dá-me a coragem de olhar a minha história com verdade e esperança.

Como Teresa, quero reconhecer as Tuas misericórdias.

Como João, quero caminhar na noite confiando na Tua luz.

Faz do meu nome um lugar de encontro Contigo.

E que cada passo da minha história seja resposta de amor.

Ámen
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