Testemunho da Maria Guadalupe Videira

  1. Como vim parar ao Rumos

Sem querer contar a história da minha vida, tenho de começar por dizer que o início da minha vida adulta foi um período extremamente conturbado. A infância e a adolescência foram sempre de grande alegria e despreocupação e a chegada aos 20’s foi duríssima. Pela primeira vez, experimentei sentimentos de desorientação, dúvida, angústia. Sentia-me perdida. Tudo isto se intensificou com o início do trabalho. Não ver uma meta para onde ir deixou-me completamente desnorteada. A vida era só isto… Faltava-me um namorado para poder traçar a meta do casamento e preencher a minha vida com um objectivo, mas ao mesmo tempo sentia-me fechada a relações, sem autoestima… queria apenas um objectivo… sentia que estava a ficar para trás e isso, o meu ego não aguentava. Era um constante desassossego e não sabia de todo o que fazer a esta fase da vida…

Comecei a ler a História de uma alma, de Santa Teresinha. Esta leitura mudou tudo… quer pelas marcas que deixou na minha relação com Deus, quer pelo caminho que então comecei … Foi Santa Teresinha, em pessoa, que me trouxe ao Carmelo. Ao ler sobre a vida das irmãs e o seu propósito, no estado em que se encontrava a minha alma, decidi escrever ao Carmelo… podia ser que me ajudassem… não faço a menor ideia do que escrevi naquela carta, mas naquele momento, por pura inspiração, sentia que fazia muito sentido bater a esta porta.

A irmã Margarida e respondeu-me e convidou-me para vir cá falar com ela… Eu vim mas na verdade não sabia o que dizer…. Eu já não sabia o que tinha escrito e agora não sabia o que pretendia… pensei: ora bolas, vou ter que inventar qualquer coisa porque, no fundo, não se passa nada assim tão grave na minha vida para eu ir falar com freiras…

Na conversa, a Irmã Margarida informou-me que iriam começar este conjunto de retiros, que havia vários jovens a chegar ao Carmelo com angústias semelhantes e eu, que sempre tive como lema de vida, dizer que sim a tudo o que a Igreja me propusesse, pelo menos para experimentar, decidi inscrever-me porque “mal não fazia”.

 

  1. Os primeiros Rumos

O primeiro Rumos foi estranhíssimo… era um grupo de pessoas, maioritariamente do norte, em fases da vida muito diferentes da minha (uns no secundário, outros já quase a casar), nada a ver com o que era costume…

Embora pareça afável, sou de muito poucas palavras no início e lembro-me que não falei para ninguém… Gostei… foi giro, os testemunhos foram óptimos… mas estava feito…. Já tinha falado sobre tudo o que havia para falar relacionado com a vocação…

Saí contente, mas não ia voltar… O grupo não me chamava e o tema estava dado…

Acontece que o segundo Rumos foi marcado e a irmã margarida perguntou-me se eu me ia inscrever…. A minha vontade era nenhuma, mas não era possível dizer que não a uma freira carmelita…

Eu vim contrariada, porque odeio sentir-me “à parte” e as pessoas todas tinham imensa intimidade e eu não tinha nada a ver com esta gente… íamos falar de quê????

Acontece que, timidamente, um e outro vinham fazendo conversa comigo. Eu, que não dou parte fraca, ia fazendo conversa, sem nunca mostrar desconforto, mas ainda não estava em casa… Este rumos já fez mais sentido e, pelo menos, já não me sentia completamente desconfortável no grupo… mas realmente agora é que tínhamos falado de tudo o que havia para falar sobre vocação… era impossível haver mais o que falar sobre isto. Por mim estava feito!

Abriram as inscrições para o terceiro Rumos e eu, que nunca na minha vida deixei nada a meio, pensei: pronto, vou lá para ter tudo feito e é o último. Só que o método de oração que eu tinha começado entre o segundo e terceiro rumos, bem como as conversas com a Irmã Margarida, tinham começado a mudar o meu coração. E quando cheguei ao Rumos, vinha mudada. Sentia-me mais aberta aos outros, mais confiante do plano de Deus, mais compreendida…

 

  1. Chegada ao fim do terceiro Rumos

O terceiro Rumos foi incrível… de meramente confortável, passei a sentir-me parte importante do grupo. Ver os passos que os outros tinham dado e ver a mudança na minha vida, perceber que tinha um conjunto de santos que dedicavam toda a sua energia ao acompanhamento da minha alma foi incrível… mudou tudo. Vesti a camisola, dediquei-me a criar laços e percebi, pela primeira vez na vida, que Deus pensou na minha vida desde o início dos tempos… que eu não ando aqui à toa… que há um plano ao qual eu posso aderir…

 

  1. Os anos de retiro e acompanhamento espiritual – como a espiritualidade carmelita mudou a minha vida.

Ter chegado a esse ponto foi fundamental para o que se seguiu… no fim do terceiro rumos não tinha ainda chegado ao ponto em que estou hoje… já sabia que a minha vocação não passava pela vida religiosa, mas ainda ponderava muito a vida consagrada. A vida matrimonial era uma opção, mas o meu coração estava muito fechado. Não confiava em ninguém, não acreditava em mim… confiava que Deus me podia mostrar o caminho… isso era muito já… mas ainda faltava outro tanto.

Os anos de retiro, o conhecimento dos santos do Carmelo, o exercício do método de oração teresiana, as leituras espirituais que tenho posto em prática, desenvolveram a minha capacidade de ouvir o que Deus tem para me dizer… De não saber rezar, passei a ter muito que falar com Deus…. Agora conto-Lhe tudo… muitas vezes através de palavras de outros, ou por conversas que vou tendo com amigos, e muitíssimas vezes por escrito, vou aprendendo a contar-Lhe a minha vida… além disso, agora também O oiço… Ele faz parte das minhas decisões. Já não me sinto perdida, nem desassossegada… graças a Santa Teresinha, encontrei paz. Uma paz que ninguém me tira… nem o pecado já me tira a paz… já não me sinto à espera de nada…. Sinto-me apenas em caminho… para onde? Já não é para nenhuma instituição ou objectivo da terra… sinto-me apenas a caminho do céu, da forma que Deus me for mostrando…