Começo por me apresentar: chamo-me André, tenho 26 anos, sou de Lisboa, fiz o curso de Engenharia Civil e, neste momento, sou noviço Carmelita Descalço.

Alguém mais atento poderia perguntar: mas este, sendo de Lisboa, como é que conheceu os Carmelitas? A resposta é simples: existe uma Irmã no Carmelo de S. José de Fátima que enviou um mail ao meu pároco de então a perguntar se não tinha ninguém que pudesse mandar para uma atividade que ia acontecer em Fátima, logo a seguir ao ano novo de 2015. Essa atividade era o Rumos, que tinha como objetivo o discernimento vocacional. Ora bem, eu que não sabia o que eram os Carmelitas; eu que nunca tinha visto um Carmelita nem mais gordo nem mais magro; eu que dizia sucessivamente que não a todo e qualquer proposta de retiro que o meu pároco me fazia resolvi, providencialmente, dizer que sim. E foi a melhor coisa que fiz.

Vim ao Rumos à procura da minha vocação. Tinha então terminado o meu curso superior e esse era o momento oportuno para um tirar teimas que vinha adiando. Em abono da verdade, não posso dizer que vinha à procura da minha vocação: a minha vocação estava decidida, estruturada e perfeitamente delineada por mim: só vinha era à procura de confirmação (de uma palmadinha nas costas, do género: “é isso mesmo, segue em frente”). E claro, posso dizer claramente que os meus planos não passavam pelos Carmelitas. No entanto, depois desse Rumos, a minha vida deu uma volta de 180°. As certezas que eu tinha caíram por terra. Mas como sou extraordinariamente teimoso não o queria admitir.

Quem nos tinha orientado o retiro disponibilizou-se para conversar/acompanhar enquanto o próximo não acontecesse. E, como eu tenho muito pouca vergonha, aproveitei logo. Nestas conversas, aquilo que eu não queria crer, foi-me sendo mostrado e fui-me deparando com uma realidade cada vez mais inevitável: os meus planos eram para deitar ao lixo, porque Deus tinha outros.

Como tudo parecia empurrar-me para os Carmelitas, voltei ao Rumos (desta vez em Março). No final do retiro, fui passar uns dias ao Porto, à comunidade dos Padres Carmelitas Descalços. O objetivo era ver como é que viviam, passar um tempo com eles e esclarecer o que Deus me pedia. Quando esses dias acabaram já não havia dúvidas: havia que refazer todos os antigos planos e entrar como Postulante para os Carmelitas Descalços porque era aí que o Senhor me queria. Eu venho de uma família “pouco católica”, pelo que, como se pode imaginar, a minha vocação não foi das coisas mais fáceis. Mas depois de muitas lágrimas, de algum sofrimento, as coisas estão melhores.

Depois de dois anos de Postulantado no Porto, em que fiz algumas cadeiras do curso de Teologia na Católica do Porto, fui admitido ao Noviciado que começou no dia 9 de Agosto (de 2017), em Fátima. Este tem sido um tempo de bênçãos enormes. O tempo de Postulantado é um tempo de experiência, de vida em comum, mas como tem a faculdade pelo meio há sempre “distrações”. O tempo de Noviciado não: é um tempo ad intra: não há idas a casa, não há faculdade, nada dessas “distrações”. É um tempo de estudo da espiritualidade carmelita, de dar valor e importância às relações comunitárias e de dar espaço a Deus, que se revela no silêncio e na solidão da oração e da cela (quarto, em linguagem corrente). Tudo isto para se perceber se Deus efetivamente nos chama a esta vida ou não. Até agora, penso que sim!

A jornada continua. Que o Senhor faça como for servido, porque, como a Virgem Maria, eu só quero fazer a Sua vontade. A quem ler este testemunho quero despedir-me com uma descoberta que fiz: entendi que para ser verdadeiramente feliz é necessário abandonar-me nos braços do Senhor e perguntar-Lhe, com toda a liberdade, «Senhor, Vós conheceis-me melhor que ninguém; dizei-me pois, que quereis de mim?» Descobri que o segredo para a felicidade está nesta resposta. Seja ela qual for! Mas esta resposta só se descobre no silêncio da oração, onde Deus se revela e nos revela o Seu plano de felicidade para cada um de nós. Se formos corajosos para Lhe dizer que sim seremos, real, verdadeira e plenamente felizes.

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